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Patricia Assaf
Patricia Assaf03/04/2025 19:05
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O Mito do Gênio da Tecnologia – Por que Hollywood está errada?

    O estereótipo do hacker solitário

    Você já viu essa cena antes: um quarto escuro, iluminado apenas pelo brilho de monitores. Um jovem de capuz digita freneticamente enquanto códigos misteriosos correm pela tela. Em poucos segundos, ele invade um sistema governamental, desativa uma bomba ou salva o mundo de um ciberataque.

    Parece cena de filme? Pois é – porque é mesmo. Esse é o "gênio da tecnologia" que o cinema nos empurra há anos. Mas e se eu te dissesse que essa imagem não passa de um mito – e que ele causa muito mais danos do que parece?

    A realidade da tecnologia está longe desse estereótipo. E entender isso é essencial, porque a forma como retratamos a inovação afeta diretamente quem se sente parte dela – e quem é deixado de fora.

    De Onde veio esse estereótipo?

    O curioso é que, no começo da computação, a história era bem diferente. Nos anos 1940 e 1950, a programação era um trabalho feito majoritariamente por mulheres. As "ENIAC Girls" foram pioneiras na programação, e cientistas como Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson tiveram um papel essencial na corrida espacial da NASA.

    Mas algo mudou. Com o tempo, a computação foi se tornando um campo dominado por homens. Nos anos 1980, a cultura pop ajudou a reforçar essa mudança. Filmes como Jogos de Guerra (1983) e Hackers (1995) consolidaram a ideia do hacker jovem, brilhante e rebelde. Enquanto isso, o Vale do Silício começava a elevar figuras como Steve Jobs e Bill Gates ao status de "gênios visionários", reforçando a ideia de que inovação é um dom inato, e não algo aprendido.

    Hollywood comprou essa história – e nos vendeu a ideia de que o programador típico é um homem branco, introvertido e genial, trabalhando sozinho no escuro.

    A realidade que Hollywood ignora

    A verdade? A tecnologia é um campo muito mais diverso do que os filmes retratam. Mas a falta de representatividade ainda é um problema real.

    Veja alguns números:

    • Nos filmes, 63% dos personagens de tecnologia são homens brancos. Na vida real, essa porcentagem é menor.
    • Apenas 17% dos personagens são mulheres, enquanto no mercado de trabalho elas representam cerca de 24% da força de trabalho em TI.
    • Profissionais negros são 13% da área, mas nos filmes aparecem em apenas 6%.
    • Pessoas com mais de 40 anos são 31% do setor de tecnologia, mas no cinema, quase não existem.
    (Fonte: IBGE 2023 + Análise de 100 filmes)

    Isso não é só uma questão de estatísticas. O impacto cultural dessas representações afeta a forma como as pessoas percebem a tecnologia – e quem se sente parte dela. Se a indústria do entretenimento nos diz, repetidamente, que programadores são sempre homens brancos geniais, isso influencia quem acredita que pode seguir essa carreira.

    E o impacto não para por aí.

    O problema por trás do mito

    A falta de representatividade cria barreiras invisíveis. Muitas mulheres nunca consideraram a tecnologia como uma opção simplesmente porque nunca viram figuras como elas nesse papel. Quando você não se vê em um espaço, é difícil imaginar que pertence a ele.

    Além disso, os ambientes de trabalho refletem essa exclusão. Quantas vezes você já ouviu alguém dizer "nossa, você não parece um programador"? Essa mentalidade perpetua a ideia de que existe um "tipo ideal" para trabalhar com tecnologia – e se você não se encaixa nele, precisa provar o seu valor duas vezes mais.

    Esse problema também afeta os produtos que usamos. Um estudo mostrou que algoritmos de reconhecimento facial apresentam 35% mais erros para mulheres negras do que para homens brancos. O motivo? Muitos desses sistemas foram treinados em bancos de dados que não incluíam diversidade suficiente. A falta de inclusão na tecnologia não é só injusta – ela cria falhas reais que afetam a vida de milhões de pessoas.

    Quando a ficção molda a realidade

    Se a exclusão na tecnologia fosse apenas um problema de Hollywood, já seria ruim. Mas a verdade é que essa mentalidade está enraizada na cultura do setor.

    Em 2015, Ellen Pao, ex-CEO do Reddit, processou uma grande firma de capital de risco, expondo a discriminação contra mulheres na tecnologia. Ela denunciou como mulheres eram sistematicamente excluídas de reuniões importantes e como, apesar do desempenho, eram preteridas para promoções.

    Pouco depois, em 2017, um engenheiro do Google, James Damore, escreveu um memorando interno argumentando que "diferenças biológicas" explicavam a baixa presença feminina na tecnologia. O documento viralizou, gerou um debate acalorado e expôs um problema maior: ainda há muita gente que acredita que a tecnologia pertence a um grupo exclusivo.

    Como mudar a narrativa?

    Se queremos um setor de tecnologia mais diverso e inovador, precisamos mudar essa história – não só no cinema, mas na vida real. Aqui estão algumas formas que, acredito eu, podem fazer isso:

    1. Valorizar referências diversas - Precisamos contar histórias de inovação que vão além do perfil tradicional. Mulheres, negros, neurodivergentes e tantos outros grupos já fazem parte dessa revolução – só não têm a mesma visibilidade.

    2. Desmistificar a ideia de dom natural - Ninguém nasce programador. Tecnologia é aprendizado, prática e acesso a oportunidades. Precisamos incentivar mais pessoas a entrar nesse universo, especialmente grupos que foram historicamente deixados de fora.

    3. Tornar os processos seletivos mais inclusivos - Empresas precisam repensar como contratam. O conceito de fit cultural muitas vezes serve apenas para manter o status quo. Em vez disso, precisamos valorizar diversidade de experiências e perspectivas.

    4. Reduzir vieses inconscientes - Testes práticos anônimos podem ajudar a garantir que contratações sejam feitas com base em talento, e não em preconceitos inconscientes.

    5. Apoiar iniciativas que promovem diversidade na tecnologia - Existem diversas organizações que trabalham para aumentar a inclusão na tecnologia – desde programas de ensino até startups lideradas por mulheres e minorias. Apoiar esses projetos é um passo essencial para uma mudança real.

    Conclusão: A tecnologia precisa de novas narrativas

    A tecnologia do futuro não será construída apenas por jovens de capuz programando no escuro. Ela será moldada por mulheres que codificam enquanto equilibram outras responsabilidades, por profissionais mais velhos trazendo novas perspectivas, por neurodivergentes que enxergam soluções únicas e por pessoas de todas as origens que querem inovar – desde que tenham a oportunidade para isso.

    Se quisermos um setor mais inovador e justo, precisamos mudar essa história agora. E tudo começa com a forma como enxergamos – e contamos – essa narrativa.

    Fontes e Referências

    Se você quiser se aprofundar nos dados apresentados e entender melhor a questão da diversidade na tecnologia e na mídia, aqui estão algumas fontes relevantes:

    • IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – Relatórios sobre mercado de trabalho e diversidade no Brasil.
    • https://www.ibge.gov.br
    • Diversity in Tech Reports (Statista, McKinsey, etc.) – Estudos sobre diversidade no setor de tecnologia.
    • Relatório da McKinsey "Diversity Wins" (2020): https://www.mckinsey.com
    • Relatórios da Statista sobre diversidade em tecnologia: https://www.statista.com
    • Estudo sobre Representatividade no Cinema e TV – Universidade do Sul da Califórnia (USC Annenberg)
    • https://annenberg.usc.edu/research/aii
    • Relatórios sobre diversidade na indústria de tecnologia – Google, Microsoft, Facebook, etc.
    • Diversidade no Google: https://diversity.google
    • Relatório de diversidade da Microsoft: https://www.microsoft.com/en-us/diversity

    A mudança começa com informação e consciência. Quanto mais falamos sobre esses temas e cobramos por mais inclusão, mais podemos transformar a tecnologia em um espaço acessível para todos.

    Na série 'Desafiando Estereótipos: Uma Série sobre Tecnologia, Reinvenção e Inclusão', compartilho minha jornada de superação de barreiras e descoberta do meu espaço na tecnologia. Ao longo dos artigos, vou contar como enfrento estereótipos, me reinvento e busco um caminho que faça sentido para mim. Se você é uma mulher em um campo majoritariamente masculino, alguém que está mudando de carreira mais tarde na vida ou um profissional que busca um ambiente mais inclusivo, espero que minha história inspire você a seguir em frente. Acompanhe e junte-se a mim nessa jornada!

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    Comentários (4)
    DIO Community
    DIO Community - 04/04/2025 10:20

    Patricia, você aborda um ponto crucial sobre a representação na mídia e como Hollywood perpetua o estereótipo do "gênio da tecnologia". Essa imagem do programador solitário e brilhante não reflete a realidade do setor, que é muito mais diversificado. No entanto, a falta de representatividade, especialmente de mulheres e minorias, ainda é um grande desafio, tanto nas telas quanto no mercado de trabalho.

    Além disso, essa visão errada prejudica a inclusão, já que muitos não se sentem parte desse universo por não se verem representados. A falta de diversidade nos algoritmos também resulta em falhas que afetam a vida de milhões de pessoas. A mudança dessa narrativa é essencial para criar um ambiente mais justo e inovador.

    Como podemos incentivar ainda mais a diversidade na tecnologia e garantir que todos tenham as mesmas oportunidades nesse setor?

    GM

    Gabriele Mota - 04/04/2025 09:52

    Artigo muito importante!

    Patricia Assaf
    Patricia Assaf - 04/04/2025 09:25

    Márcia, o seu comentário me tocou de verdade.

    Você entendeu direitinho o que eu quis dizer com o texto — não só questionar uma história que exclui, mas abrir espaço pra outras vivências, outras presenças, outras formas de criar e inovar. Porque tecnologia nunca foi (nem é) coisa de um tipo só de pessoa, mesmo que muitas vezes a gente veja isso sendo reforçado por aí.

    É muito forte quando a gente se reconhece — ou reconhece alguém que ama — nessas conversas. Dá um aperto no peito, mas também acende uma vontade enorme de continuar reescrevendo essas histórias juntas, com mais coragem e com mais gente por perto.

    Obrigada por ter lido com tanto carinho e por ter respondido com tanta generosidade. Que essa conversa continue crescendo e ganhe ainda mais vozes como a sua.

    MÁRCIA SOUZA
    MÁRCIA SOUZA - 03/04/2025 22:51

    Li com atenção — e, confesso, com um certo alívio. Alguém finalmente resolveu dizer o óbvio que muita gente insiste em ignorar: esse tal de “gênio da tecnologia”, sempre brilhante, solitário e (quase sempre) homem branco, é um personagem de ficção. E como toda ficção contada à exaustão, ela acaba virando verdade pra muita gente.

    O texto vai muito além de apontar o problema. Ele abre espaço. Traz história, questiona certezas engessadas e convida a gente a imaginar outros caminhos — caminhos onde mulheres, pessoas negras, mais velhas, neurodivergentes ou simplesmente fora do “perfil ideal” possam ocupar, com legitimidade, o centro da inovação.

    Não tem como sair ilesa depois da leitura. A gente se vê ali — ou vê alguém querida — e entende o quanto já foi deixada de fora só por não se encaixar. Que bom saber que tem gente como você reescrevendo essas narrativas. Que venham mais capítulos. E que mais gente leia com olhos atentos e coração aberto.


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